Que tal "Filipus"?




Desdemona saiu de sua casa, em Porto Alegre, as 18:40 dia 23/09/2011 e dirigiu-se, em um táxi vermelho que estava no ponto mais perto de sua casa, à Casa de Cultura Mario Quintana, chegando lá as 18:50. Era segunda-feira, fazia um frio leve e o vento soprava para o lado que não era bom para o seu penteado. Estava cansada por acabar de sair do trabalho. E ela usava um vestido bege e largo, um casaco de couro marrom, uma bolsa branca e um par de sapatilhas brancas com uma fita preta que formava um laço pequeno e delicado em cada uma. Pagou meia entrada para ver o filme, pois tinha uma carteira de estudante falsa. O filme que veria acabara de estreiar e que ela nunca ouviu falar, um que se chamava "Serge Gainsbourg, o Homem que Amava as Mulheres", só estava lá para passar algum tempo sem pensar em muita coisa do trabalho. Sentou-se na cadeira do meio da terceira fileira da tela ao fundo, sala 5. Colocou seus óculos, alisou sua barriga, e em cinco minutos o filme começara.
Então, por esses 130 minutos depois de sair do trabalho, tomar banho e trocar de roupa, ela assistiu ao filme. Queria ter conhecido aquele pequeno Serge, quando ele ainda se chamava Lucien e corria pelas ruas de Paris e tocava piano a noite. Aquele Lucien que contava histórias e desenhava as mulheres nuas. Os óculos de Desdemona refletiam o filme. Lucien conversava com a modelo de Montmartre:
- Quero te desenhar, eu posso te desenhar aqui?
- Claro que pode, ficarei parada e você me desenha.
- Esse seu sutiã que é o problema, não sei desenhá-lo. Você pode tirar pra mim?
Todos riram, e a menina de vestido bege alisou sua barriga de novo. Os seus óculos ainda refletiam o filme e a projeção da película de 24 quadros por segundo ainda fazia o mesmo barulho.
"Você é muito corajosa por usar um vestido curto desses nesse frio", "Você não reconhece sua própria cara feia?", "Eu sou o homem-repolho, meio homem e meio repolho", "É lógico que encontro mulheres quando saio, como eu conseguiria desenhar xoxotas tão bem se eu não saísse?".
As luzes acenderam, o filme acabou. Desdemona se levantou e saiu da sala, indo para um bar que tinha em frente a Casa de Cultura. Pediu algo para comer e um suco. Perguntaram se ela queria uma cerveja e ela disse que não. Comeu uma de suas batatas-fritas e tomou um gole de seu suco quando um homem alto e narigudo sentou-se ao seu lado. Ele tinha olhos castanhos e um cabelo ondulado, trajava uma roupa de palhaço, mas estava sem aquela maquiagem assustadora.
- Já sonhando assim, tão cedo? Mas o filme mal acabou!
- Qual o seu nome?
- Mas você acabou de ver meu filme! Eu sou o Serge.
Dividiram as batatas e ele bebeu uma cerveja.
- Você me acompanha no ultra-som amanhã?
- Quantos meses esse moleque já tem?
- Três, por isso não dá pra ver direito. Só parece que eu tô gorda.
- Parabéns, minha querida - ele beijou suas bochechas - tomara que ele seja bonito como você é.
- Eu não sei o sexo do bebê ainda.
- Eu já disse que vai ser menino, que tal "Filipus"?

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